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sábado, 8 de julho de 2017

OBSERVAÇÕES DE RUDÁ: O MINISTÉRIO DE RODRIGO MAIA


As movimentações para a substituição de Temer por Rodrigo Maia são intensas. Em Brasília, é o tema da vez. As especulações se multiplicam na velocidade da luz.
O que Maia já teria afirmado a respeito? Que manteria a equipe econômica. Assessores próximos afirmam que Henrique Meirelles e Dyogo Oliveira seriam mantidos.
Há quem sustente que Maia já estaria sondando alianças com PT, PC do B e PDT, além do eterno PMDB. Para quem duvida, posso adiantar que muito antes da queda de Dilma Rousseff, Michel Temer realizou reuniões em sua casa com lideranças destes partidos que acabo de citar. Tenho registros de uma reunião envolvendo 13 lideranças e posso citar um dos presentes (já que ingressou no governo Temer): o deputado federal mineiro José Silva (ex-presidente da EMATER-MG e ASBRAER).
A dúvida permanece em relação ao núcleo político do governo Temer, envolvendo Casa Civil, Secretaria de Governo e Secretaria-Geral. Um dos acordos em curso envolve a blindagem de Eliseu Padilha e Moreira Franco.
Apenas um breve comentário para sugerir que a época da inocência deveria ser banida das redes sociais. Só atrapalha a emergência de uma consciência política mais sólida e eficaz.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

OBSERVAÇÕES DE RUDÁ SOBRE O GOLPE

NOTA DO BLOG: O nosso blog reproduz a entrevista de Rudá Ricci dentro da série OBSERVAÇÕES DE RUDÁ, nesse momento histórico em que uma presidente eleita pelo voto popular é afastada de maneira dúbia.
Após o afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff da Presidência da República, com o encerramento do processo de impeachment no Senado, por 61 votos a 20, a questão a ser respondida é: “O que deixará marcas na história do Brasil?”, diz Rudá Ricci à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por telefone na tarde de ontem, 31-08-2016.
Para ele, três são as marcas que ficarão na história política do país: a transformação do PT em um “partido tão conservador quanto qualquer outro”, a perda de “legitimidade” “junto ao seu eleitorado”, e a “não concordância” da sociedade “com esse estratagema” de “troca de poder”, onde sai a presidente eleita e entram “os derrotados da eleição de 2014”.
Na entrevista a seguir, Ricci comenta o esvaziamento das ruas na última semana e atribui o fato ao próprio PT, que “não fez nenhum esforço real de organizar manifestações pró-Dilma, porque nos bastidores muitos dizem que era melhor a Dilma sair como vítima – e hoje a votação foi perfeita nesse sentido para o PT. (...) Eles diziam que seria muito importante ela sair como vítima porque se ela voltasse teria um governo interditado, não conseguiria governar e isso acabaria transbordando sobre a legitimidade do PT”. Dilma, avalia o sociólogo, já “está muito mais para o trabalhismo do que para o PT neste momento e tenho a impressão de que o PT também quer isso”.
Apesar da queda da presidente Dilma e do descrédito em relação ao PT daqui para frente, “é a esquerda mais radical que cresce”, pondera Ricci, ao comentar rapidamente o desempenho do PSOL nas campanhas municipais em alguns estados do país. Esses dados, frisa, não indicam “pouca coisa” e “não dá para dizer que a esquerda está frágil”, embora o que tende a “criar um vigor popular e de esquerda serão os movimentos sociais e não os partidos”.
Segundo ele, “a partir de agora a esquerda, possivelmente, terá uma constelação de partidos, o PCdoB, provavelmente, vai disputar em muitos locais a base do PT e os movimentos sociais é que, supostamente, serão o cimento de um novo projeto popular e de esquerda no Brasil, principalmente o MTST, dirigido pelo Guilherme Boulos”. Apesar dessa diversidade e do fim de um partido de massa como foi o PT, isso não significa que a esquerda “será mais fragmentada”. “Nós agora, em função, inclusive do lulismo, temos organizações, partidos e movimentos que têm agendas próprias e isso não significa que tenhamos uma esquerda fragmentada; isso significa que a esquerda será somatória. Posso te garantir que está tendo muita reunião na periferia, entre a esquerda, para fazer esse acordo, mas neste momento, sem o PT”, conclui.


Rudá Ricci é graduado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP, mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. É diretor geral do Instituto Cultiva, professor do curso de mestrado em Direito e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara e colunista Político da Band News. É autor de Terra de Ninguém (Ed. Unicamp), Dicionário da Gestão Democrática (Ed. Autêntica), Lulismo (Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto), coautor de A Participação em São Paulo (Ed. Unesp), entre outros.

Confira a entrevista.

sábado, 13 de agosto de 2016

90 ANOS DE FIDEL: A MUDANÇA DE REFERÊNCIA ENTRE TRÊS GERAÇÕES

90 ANOS DE FIDEL: A MUDANÇA DE REFERÊNCIA ENTRE TRÊS GERAÇÕES

SÉRIE: OBSERVAÇÕES DE RUDÁ
Sartre e Simone pelo mar cubano

Hoje, Fidel faz 90 anos. O que me leva a pensar sobre o que ele representa para os jovens, nesta quadra do Século XXI. Por que jovens? Porque Fidel foi um símbolo de rebeldia para os jovens dos anos 1960, uma geração mais velha que a minha. 

Acredito que a imagem mais poderosa para aquela geração é esta foto que ilustra esta nota. No início de 1960, pouco mais de um ano após a revolução cubana, Sartre e Simone de Beauvoir passaram um mês em Cuba. A viagem teve um impacto tão forte sobre parte da juventude ocidental quanto a entrada de cabeça de Régis Debray pela ilha.
Aliás, Debray passou pelo Rio de Janeiro em 1964, na tentativa de contatar Carlos Marighella. Tinha 24 anos. Mais tarde, se lançou na guerrilha ao lado de Che Guevara, foi preso na Bolívia e condenado à 30 anos de prisão. Só foi solto em 1970 porque Sartre articulou uma campanha internacional de intelectuais na defesa de Debray.

O fato é que Fidel virou um ícone de rebeldia juvenil, um sopro de vida no mundo quase vitoriano que era superado por tantos outros atos de rebeldia da juventude, a começar pelos hippies e Beatles, além dos Rolling Stones, na esteira da avenida aberta pela geração perdida de Hemingway, Fitzgerald e Gertrude Stein e da geração explosiva de Kerouac e Ginsberg. 

O mundo parecia dos jovens e Fidel e Che Guevara parecia o braço político e latino-americano desta ponta do iceberg.
De alguma maneira, a rebeldia agressiva (e violenta) incentivou arroubos políticos da mesma geração aqui no Brasil (de Brizola à Mariguella, passando pelo engajamento de tantos jovens que decidiram enfrentar a ditadura colocando suas próprias vidas em risco).
A minha geração percebeu em Fidel um quase-mito. Parte de nós acompanhou as viagens organizadas por Fernando Morais e Chico Buarque à Cuba, levando consigo Gonzaguinha e tantos outros artistas tão admirados pelos jovens de então. Lemos "A Ilha". Sentimos as tensões entre Cuba e URSS e acabamos nos surpreendendo com as contradições que pipocaram nos relatos de Gabeira e de tantos que viajaram para lá e se chocaram com a falta de perspectiva de tantos jovens que pediam para os turistas para deixarem seus tênis. O filme "Antes do Anoitecer", sobre o poeta gay Reynaldo Arenas (interpretado por Javier Bardem) arranhou profundamente nossa crença de que por lá se construía um mundo mais justo para todos. Mas, ainda assim, o orgulho negro dos cubanos, as políticas de saúde e educação e o enfrentamento corajoso de um mundo liliputiano contra a maior potência bélica e econômica do mundo, deixavam a todos boquiabertos. Padura (o autor do comovente e genial "O Homem que Amava os Cachorros") parece ter conseguido traduzir o sentimento que Cuba deixou em nossa geração: admiramos e lamentamos.
Até que chegamos à geração atual. Na passagem da minha para a Geração Y ou Z, Fidel foi substituído por Che Guevara. Che era mais jovem, morreu rebelde contra todas as formas de poder, incluindo a montada pelo castrismo. Che foi estampado em camisetas e sua foto imponente registrada e concebida por Alberto Díaz, também conhecido como Korda, parecia confirmar a força interior da juventude, desdenhando o chão do cotidiano.
A novíssima geração de jovens rejeita grandes narrativas. Rejeita o poder hierárquico e os jogos de dissimulação. Gostam do papo reto, ácido e se organizam em comunidades (que alguns gostam de denominar de coletivos). Não parece haver espaço para gente como Fidel.
Aos 90 anos, Fidel parece cada vez mais com o cavaleiro da triste figura. Com a exceção significativa que lutou contra os moinhos de vento e ganhou, ainda que parcialmente. Mas, para a juventude atual, parece distante e, ele mesmo, parece ter construído um moinho para si. Afinal, não se vê jovens cubanos dirigindo Cuba. Todos dirigentes parecem fardados. As disputas são palacianas. Felizmente, filha de Raúl Castro, Mariela, apóia a luta LGBT na ilha de Fidel.
Recentemente, liderou uma parada gay que tinha como slogan "Abaixo a Homofobia", na cidade de Cienfuegos (nome de outro ícone incompreendido da revolução cubana). Mariela é filha de Vilma Espín, líder feminista cubana.
Enfim, Fidel faz 90 anos e ainda é referência para parte da geração anterior à minha e parte da minha geração. Evidentemente, a porção mais à esquerda ou democrata das duas gerações. Mas é preciso compreender que, assim como o físico de Fidel, sua imagem envelheceu. E assim como o corpo, sua obra apresenta fissuras. Para os jovens, a imagem de Fidel não é esta em pé, na lancha que levava Sartre e Simone pelo mar cubano. Mais que isto, os jovens de hoje parecem não se moverem por ícones ou ídolos. Eles preferem a si mesmos.

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sábado, 6 de agosto de 2016

O MUNDO DA POLÍTICA OFICIAL DO BRASIL PERDEU SENTIDO

DA SÉRIE: OBSERVAÇÕES DE RUDÁ

O golpe de Temer abriu as portas do descaso do mundo político ao razoável. Foi ao extremo do realismo político. Na verdade, o ultrapassou, criando um mundo paralelo, como o de Alice. De certo modo, retorna ao infantilismo da paralógica.
A decisão do prefeito Márcio Lacerda de apunhalar seu pupilo não tem paralelo na história política do país. A política oficial brasileira é recheada de idiossincrasias de tipo imperial. Mas nada se aproxima do nonsense de Lacerda, aquele que projetou viadutos, que pensou em vender ruas, que proibiu o uso coletivo de espaços públicos, que proibiu a capital dos botecos de cantar. Lacerda é um caso a ser analisado, estudo a ser oferecido à posteridade. Estamos falando de um Nero contemporâneo, um Calígula bem sucedido.
Paulo Brant, seu ungido, saiu de sua cabeça e vontade. A convenção formalizou sua candidatura. O candidato se desincompatibizou da Cenibra e exatamente no momento em que se despedia dos colegas de trabalho soube, não por Lacerda, mas por emissários, que o imperador o havia abandonado. Como um capricho das estrelas.
Lacerda teria feito um acordo com o silencioso Aécio Neves, o recordista de delações recentes. O senador Antônio Anastasia teria sido o mediador.
O requinte de crueldade é único. Brant foi convidado pelo prefeito de BH para se filiar ao seu partido durante o velório de seu irmão, o compositor Fernando Brant, em 2015.

Não parece ter sido coincidência. O prefeito enterrou mais um Brant.

NOTÍCIA DE REFERÊNCIA: O TEMPO.
FONTE: https://www.facebook.com/ruda.ricci?fref=ts

domingo, 9 de agosto de 2015

QUAL O SABOR DA LAMA?

NOTA DO BLOG: Vem à mente nesse momento uma ideia, um insight. Publicar no nosso blog Mutum Socialista uma série de reflexões de gente que a gente acredita serem sinceras em suas observações, denominada QUAL O SABOR DA LAMA?
Nada melhor que o texto de Rudá Ricci, sociólogo de Belo Horizonte, postado em sua página do facebook RUDÁ GUEDES RICCI para iniciar essa série.




QUANDO O PROBLEMA CHEGA À QUEDA DE LEGITIMIDADE

Legitimidade é o conceito básico da relação democrática. O voto é uma expressão popular das intenções e crenças do eleitor que legitima o eleito. Contudo, se o eleito foge deste consenso original, perde legitimidade como um asmático perde capacidade para absorver oxigênio. Conseguir obediência sem necessitar usar a força é um dos sinais do poder legítimo. Gerar consensos entre membros da sociedade e das forças políticas hegemônicas do país é outro sinal. Esta é a fonte da autoridade eleita.
A situação do governo Dilma é, neste sentido, desesperadora. Perdeu em um semestre o aval que o país lhe conferiu pelas urnas. Por qual motivo? Os dados recentes indicam que é reflexo do pacote econômico, que desde o início denominei de "suicida", que rompeu com toda a lógica do lulismo e, pior, com a promessa de campanha.
Dilma já se revelou, no primeiro mandato, incapaz de agregar. É tecnocrata e, assim, bateu de frente com a suposição de Max Weber sobre o perfil e a ética das lideranças políticas. Weber sustentava que, ao contrário da ética do cientista, o político não pode ser intransigente e defender ao limite sua verdade sob pena de se tornar tirano. A ética política democrática sugere transigir.
Dilma ficou famosa por ser intransigente e agressiva. Também é de conhecimento público que sob sua batuta, parte significativa do arco de alianças montado por Lula se desfez. O pacote econômico recessivo e monetarista foi a outra peça que desfez o jogo de varetas que estrutura a legitimidade do lulismo. Nordeste perde empregos e investimentos. Os pobres compram menos. Os assalariados perdem empregos.
Para piorar a situação, em seis meses, a direção nacional do PT se revelou impotente e não conseguiu criar um fato político positivo. O arremedo de encontro nacional em Salvador prometia algo de novo e terminou melancólico, com mais do mesmo.
O governo Dilma foi se paralisando, como que tomado por pânico, abrindo mais e mais espaço para Michel Temer até que se forjou um consenso exógeno ao governo de que o vice-Presidente da República era mais talhado que a titular. Jornalões e federações empresariais poderosas sinalizaram o consenso. Mas não ficou por aí. Frei Betto e Valter Pomar produziram entrevistas e ensaios em que ficou nítido que a hora de baixar a bola parecia ter chegado.
A deslegitimação acelerada abriu espaço para aventureiros. E eles já começam a ser nomeados pelos atores que citei acima. Citam Eduardo Cunha, mas também Aécio Neves. Por motivos diferentes, esses dois personagens oposicionistas jogam suas fichas num desfecho dramático em relação ao governo, pouco se importando com a estabilidade do país. Um, parece ferido por não ser blindado das investigações da Operação Lava Jato. Outro, sabe que em caso de eleição antecipada, seu nome ainda estará fresco na memória do eleitor como o último candidato que enfrentou Dilma Rousseff. O tempo de ambos está se esgotando. Passado este semestre, é provável que mergulhem no ostracismo. Cunha poderá ser alvejado em pleno início de voo. Aécio cederá lugar ao governador paulista, aliás, o verdadeiro artífice de sua ida ao segundo turno das eleições do ano passado, já que em terras mineiras, o senador mineiro foi três vezes derrotado pelas urnas.
Para debelar a aventura golpista, o PT terá que ceder. A questão é: o que ceder? As especulações são muitas e várias "demandas" já foram apresentadas. O governo, mais uma vez, reage (nunca se antecipa) e "vaza" nomes de uma possível reforma ministerial se arriscando ao isolamento profundo, caso tais indicados recusem esta possibilidade publicamente.
O tempo parece curto, mas os indícios parecem apontar para um acordo geral, um pacto de estabilidade política, tendo Michel Temer como o fiel da balança. O PT terá que ceder. Em quatro anos, perdeu todo capital que conseguiu construir em décadas ou, para não ser tão catastrófico, que construiu ao longo dos governos Lula.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

AS VOLTAS QUE A ESQUERDA DÁ

TEXTO TRANSCRITO DO PERFIL DE: RUDÁ GUEDES RICCI.
AS VOLTAS QUE A ESQUERDA DÁ... ou... quando o MRT tentou ingressar no PSOL
200 militantes decidem ingressar num partido. Uma corrente denominada Movimento Revolucionário dos Trabalhadores, MRT. Possuem inserção em fábricas, correios, bancários e estruturas sindicais de servidores públicos, como o Sintusp. Presentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais. Recentemente, lançaram o portal Esquerda Diário no Brasil. Trotskistas, surgiram por decisão do Congresso da Liga Estratégia Revolucionária – Quarta Internacional, a LER-QI. Seção brasileira desta corrente internacional que tem na Argentina seu pólo mais estruturado no nosso continente. Até aí, normal. Decidiram, então, ingressar no PSOL. E, como a esquerda dá voltas que nem sempre um cidadão comum entende, receberam como resposta que somente depois do congresso do partido, que ocorrerá no final deste ano, decidirão se esses 200 militantes podem passar do batente da porta. Tem uma outra história, não oficial. Duas correntes internas do PSOL bateram pé para eles não entrarem. De fato, 200 militantes devem incomodar mais que vários elefantes.